A loucura passou para tomar café em uma daquelas tardes gélidas de fins de julho. Lembro-me bem do tempo, por que no dia me faltavam cigarros (fato importante para um fumante) e no desespero mandei vir do armazém um maço de qualquer marca, marcando para sempre o meu paladar.
Mas no meio de todo aquele desespero (pelos cigarros e pela alma já cansada) chegou a antiga amiga, deslumbrante, pronta para iluminar meu dia. Contou-me então de suas antigas aventuras – ela andou pela Bolívia e o Afeganistão – e sorriu, mostrando todos os dentes de uma boca perfeita, e fazendo-me perguntar como durante tanto tempo eu vivi sem a loucura.
Ela, de cabelo preso, fazia pequenos movimentos com os braços enquanto me contava da vida - a qual parecia agradável de sua boca – e olhava-me com um olhar infantil e dócil (daqueles que fazem o homem sorrir ao relembrar seu passado) nas horas em que me pretendia inteligente ao declarar algumas opiniões lidas em livros jogados ou recitava minhas obras tentando alcançar seu estágio de graça. Mas como alcançar algum estágio de graça quando é a loucura que se põe a sua frente?
A noite, então, foi caindo, e a loucura, mais forte, me declarou fraco perante sua presença soberana, fazendo de mim uma simples marionete de seus desejos, os quais eu atendia sem entender bem o porquê, mas feliz apenas de participar, sabendo daquela noite um divisor de águas, com os quais nos deparamos ao longo de nossas vidas. Ai que a loucura veio dormir dentro de mim, mais que eu dela, nos fazendo um só, como diriam os mais românticos.
E de manhã acordou exuberante, resplandecendo toda beleza de um cabelo mal arrumado e de uma cara cheia de sono, como só as mulheres sabem fazer. Disse-me, com um sorriso, que voltava de tarde, para acabar de colocar o papo em dia, e não voltou.
Minha loucura não era tão certa, afinal.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário