Carlinhos é um grande amigo meu, amigo tão grande que guardo suas palavras para os momentos de desespero que me batem algumas vezes, durante a noite, naquelas horas em que nem eu posso me suportar. O grande problema é que sempre que nos encontramos discutimos, às vezes sobre a vida, às vezes sobre política, e outras sobre futebol (essas acirradas), mas - em geral - é sempre bom discutir com esse homem de óculos finos (como queria Drummond?), por que é dele que nasce uma nova esperança na humanidade.
A última foi sobre o amor, esse assunto tão em moda nas mesas de bares, que nos consumiu mais de duas horas, e que já me consumia semanas inteiras de devaneio.
Acontece que vejo a vida de uma perspectiva um tanto quanto racional e, ao final de mais uma desilusão, formulei aquela que seria a última teoria sobre o sentimento, matando-o para sempre, em prol de uma vida materialista.
Na minha cabeça perturbada, fermentada por algumas teorias de psicologia, o amor nada mais era que a idealização de um personagem do sexo oposto. Não pensava, porém, que se tratava de uma pessoa real, pela qual ao se apaixonar o homem ressaltaria suas qualidades a ponto de torná-la divina, mas de uma figura pré-existente dentro do imaginário masculino, ainda que latente, vindo à tona como uma distorção da realidade, que moldaria uma “pessoa qualquer” naquela idealizada previamente. Para isso, no caso, bastaria ela apresentar uma pequena parte das características desejadas.
Era por isso, eu completava, que era possível perder-se de paixão por uma mulher quase desconhecida, ou deixar de amar alguém que se conhece há anos. A primeira, por ser quase uma desconhecida, pode-se adicionar à criatura qualquer característica que desejar, tornando-a perfeita para se encaixar na mulher ideal. Já na segunda hipótese o homem vê seu mundo destruído por uma realidade incontestável, tornando a fantasia da mulher ideal inconcebível, e assim também o amor.
Por fim eu completava dizendo que qualquer pessoa apresenta para nós apenas parte de sua personalidade, de sua essência, e que a maior parte desse todo é formada por lacunas. O amor, na minha visão, se depositava (em sua maioria) nessas lacunas, permitindo ao individuo moldar a realidade a seu bel-prazer e que, por essa razão, a maioria das paixões nascia por pessoas desconhecidas, as quais podiam – e eram – colocadas de maneira a satisfazer seus desejos íntimos de apreciação.
Acontece que Carlinhos, ao contrario dos outros que tentaram em vão discordar da minha postura, relevou tudo a uma questão de semântica, já que eu considerava toda ilusão ruim, um engano, que deveria a todo custo ser evitado. Carlinhos perguntava, porém, de que importava que fossem apenas ilusões, se ilusões são reais a aqueles que a sentem? Afinal o que mais real a um esquizofrênico que as vozes em sua cabeça? A verdade, dizia ele, não importa aqueles que sentem, por que seus sentimentos já são uma inverdade, estão em algum plano intangível e não podem ser chamados de reais, da maneira como eu queria avaliá-los.
E para finalizar de vez a discussão chamou-me a atenção para a morena que havia acabado de entrar, pela qual ele acabou caindo de amores, durante exatas 48 horas.
E assim se faz Do Mundo (ou Carlinhos, se preferirem), nas palavras de um antigo poeta: “eterno em quanto dure”, pois nada importa alem dos sentimentos presentes e futuros, reais sempre, para se tornarem irreais ao longo da vida, em uma insensatez que torna o mundo interessante. Lição importante, que um grande amigo me ensinou a alguns anos, por trás de óculos finos, sentado em uma mesa de bar.
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Um comentário:
carliiinhos não sabe de nada. absolutamente nada.
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