É verdade que no homem existe sempre alguma passargada, e se ele ainda não a tem não se pode descrever esse homem como um homem feliz. São das passargadas que tecemos nossa personalidade e é delas que nos vem o sustento para enfrentar o dia-a-dia infernal. O problema maior é retornar a ela, desfazendo o sonho em simples realidade, um impacto que poucos agüentam e, que por inexperiência ou coragem, muitos buscam.
Há muito eu conheci um homem solitário que havia traçado esse destino, e por isso vivia nas ruas em busca de um novo rumo. Dissera a mim em uma mesa de bar, como convêm a esses personagens, que na sua juventude havia se apaixonado por uma mulher, mas que tivera que desistir do namoro para ir atrás de seu sonho (se tornar médico), e assim, após o último beijo teve que partir para a capital, pensando que nunca iria voltar a ver aquela moça.
Lá muito fez, se formando como primeiro da turma e já iniciando uma inigualável escalada para o sucesso, sendo, ao fim de alguns anos, reconhecido internacionalmente na sua área de atuação (pneumologia, para aqueles que sempre exigem do autor explicações detalhadas).
Para esses informo também que o nome de tal criatura era Pedro Alvim, Pepe para os íntimos (nas mesas de bar todos se tornam íntimos), e que - independente do nome - sua história continuou a mesma até um dia ser apresentado por um amigo ao Ricardo.
Não que este tenha de alguma forma lhe prejudicado conscientemente, ele nunca faria uma coisa dessas, mais seu sobrenome era Oliveira, o mesmo da antiga namorada, e apenas essa fagulha de lembrança foi o suficiente para ascender em nosso amigo o fogo de uma poderosa passargada.
Não vou descrever aqui tudo aquilo que ele sentiu ao longo de dois meses - sei como isso é cansativo afinal fui o primeiro a escutar a história – digo apenas que, tão forte foi sua passargada, que ele chegou a estar apaixonado pelo homem apenas em razão do seu nome, e só descobriu a verdade quando Ricardo o correspondeu. Porém ao invés de se afastar do pensamento ele acabou afundando ainda mais em suas meditações sobre o passado (com a mulher, não com o Ricardo), o que não era de maneira nem uma tortura.
Inclusive era à suas meditações que recorria nos momentos de maior angustia, pois considerava toda aquela história vivida extremamente agradável e distante, podendo inventar pequenos detalhes que a engrandeciam ainda mais, até que resolveu ir-se embora para passargada.
Partiu, então, dessa vez de volta ao ponto de partida buscando encontrar o sonho que havia perdido. Mal sabia ele que ao chegar na cidade iria encontra um mundo totalmente novo regado a carros de boi e grandes pastagens que ele, passados quinze anos, já não entendia o significado. E a moça até então tão Oliveira nem era mais moça, mas um pálido reflexo daquilo que fora sua paixão, entretanto consegui reatar laços e deixou-se ficar, vendo seu mundo imaginário despedaçar a cada defeito percebido.
Foi depois de alguns meses que finalmente encontrou seu destino, uma garrafa de uísque guardada no fundo da mala como lembrança de um tempo perdido, e no meio da sua embriaguez se deixou ficar, primeiro no banco da praça e depois no bar, onde só passou pra dissuadir um escritor forasteiro a voltar para sua própria passargada.
Disse ele que da ilusão é feito o homem, e que de ilusão viverá, mesmo que pense ter encontrado a realidade. A seu ver realidade nada mais é que uma maneira pessimista de ver o mundo, pois esse é apenas aquilo que enxergamos, e nele nos moldamos. E para isso servem as passargadas, para nos iludir do que fomos e seguirmos ainda mais forte, pois em um mundo ilusório-real nunca haverá mais necessidade que visitar sua própria fantasia, deixando-a moldar seu pensamento futuro sem o medo das restrições passadas, finalizando com uma expressão qualquer de dor (a qual eu não entendi bem) por ter perdido sua passargada.
E parecia tão certo de si que eu nem continuei a viagem, voltei para o mundo “real” com alguns versos inconfidentes na cabeça (são esses os sítios / são esses...) e um peso no coração, mas com a tranqüilidade de saber que, em algum lugar, sempre serei amigo do Rei...
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Gostei do texto. Achei interessante a idéia.
No entanto, há umas três partes meio confusas, que vc pod melhorar p/ não comprometer o entendimento do texto. Depois eu te digo quais são.
Postar um comentário