Sentado no fundo da sala encarava o professor, que sempre falava durante as aulas, quando entrou um besouro pela janela, e como ele não estava interessado mesmo em palavras passou a encarar o besouro. Não que a aula fosse propriamente chata, mas que aquele dia ele estava mesmo para besouros.
Chamava-se Roberto (o aluno, não o besouro), mas isso não faz muita importância, já que o besouro tinha entrado pela janela.
O que importa é que quando artrópodes entram pela janela e capturam sua atenção não realmente capturam sua atenção, mas liberam uma livre cadeia de devaneios que são mantidos através do contato visual com o animal. Sendo assim, toda a sala agora havia se transformado em besouros, e Roberto se mantinha atento aos seus movimentos.
Reparou então como besouro da Júlia era lindo, louro e fazia covinhas quando ria (e como era bonito quando era louro e com covinhas). Agora, porém, estava parada de costas para ele prestando atenção no que o professor explicava balançando suas finas patinhas, e respondia suas perguntas zumbindo imediatamente, de modo tão sutil gracioso que ele adorava ouvi-la zumbir.
O Beto (apelido do nosso herói) até gostaria de tê-la em sua coleção, mas caçava besouros muito mal, e de que adiantava o esforço se já podia dali reparar em seu zumbido. E por que se entediou dela, ou por que doía demais pensar em besouras, passou a relembrar de besouros passados (que se pareciam bastante com aquele sentado a três carteiras dele), os chamados besouros saudade.
Mas como o autor já explorou de mais esse tema a personagem resolveu mudar de pensamento.
E até começou a pensar em como acabar com os problemas políticos e sociais do mundo de artrópodes, mas o “besouro original” saiu pela outra janela, e o devaneio acabou em tédio mesmo...
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