sábado, 1 de dezembro de 2007

O Olho

Fora um convite especial que o fizera ir até a casa do amigo naquele dia, porém não se apresentava especialmente feliz naquela noite. Acontece que seria uma noite de apresentações entre passado e presente (coisa que sempre o incomodava), já que havia muitos anos não voltava à sua cidade natal e durante esse tempo Juninho (o amigo) envelhecerá e se casou, com a mulher que hoje lhe seria apresentada.
Mas por que não há como fugir destes tipos de compromissos sem que a consciência não pese, e por que a saudade é algo que sempre nos impulsiona a bobagens do gênero Carlos colocou seu melhor terno e foi-se no carro locado, reparando na nova rua velha que um dia já foi seu caminho de casa.
E como se fosse natural estacionou o carro em baixo da árvore (velha ou nova? Não saberia dizer), e tocaria o mesmo interfone da última vez, não fosse o portão que agora era verde. Mas não lhe peça para contar como chegou ao apartamento 701 que ele ficou brincando de pique-pega na cabeça até apertar (só Deus sabe como) a campainha da casa do amigo.
Veio então um homem, de cara barbada, atender, como que para lhe provar que o tempo havia passado, abraçando-o como antigamente, só para confundir mais sua cabeça.
Sem formalidades que ele era de casa foi apresentado à esposa, que com algumas formalidades o cumprimentou sorrindo, formosa e meiga, como faz as boas mulheres casadas com desconhecidos conhecidos...
E ele acabou reparando em seus olhos,cor de mel, como os de uma antiga namorada.
Mas tudo estaria bem, não fosse a esposa ir até a cozinha pegar algumas cervejas (enquanto os amigos se acomodavam nos sofás a conversar sobre a vida) e voltar como um globo ocular gigante, com três garrafas enroladas em seus cílios.
Tal visão seria o suficiente para desesperar qualquer outro homem, Carlinhos porém buscou primeiro apoio na expressão do amigo, e percebendo que tal se mantinha impassível adotou uma expressão facial semelhante e pegou sua cerveja. Afinal, não se podem cometer gafes em encontros como este, e de que importava que a mulher fosse um olho? Era um olho educado, que lhe buscará uma cerveja, portanto não tinha com o que se preocupar.
Porém, seria cinismo afirmar que a cerveja não o ajudou um pouco até se acostumar com a situação vivida.
Todavia seus companheiros não pareciam dar grande importância ao fato, e continuavam a lhe contar os fatos cotidianos da vida de um casal, como no dia em que foram pescar e a mulher não sabia como colocar isca no anzol e acabou por cair do barco, voltando encharcada para casa (passaram então dois meses sem comer peixe). E riam-se das histórias do Carlinhos (Juninho pela boca, a esposa pelas pálpebras), fazendo então a noite passar.
Lá pelas tantas eles concordaram em colocar uma música, das antigas, para se lembrarem dos bons tempos, e pouco importava que fosse um olho, ainda assim ela lhe parecia agradável, tanto que Carlos ficou a dançar e conversar com a criatura enquanto o amigo ia ao banheiro.
Entretanto ela era boa demais, e antes que ele pudesse dar pela coisa já estava dançando colado à sua pupila, escutando-a a falar coisas sobre o mundo ao seu ouvido de uma forma carinhosa e bonita, que o deixava arrepiado. E quando Juninho chegou do banheiro ouve certo desconforto entre os dois, quebrado com a promessa da mulher de ir pegar um conhaque na cozinha.
E um pouco envergonhado se pôs a conversar com Junior sobre aquela vez que o diretor quase os pegou com duas namoradas dentro do laboratório de química. Conversa que foi logo alterada quando apareceu a porta uma criatura com quatro caras e cinco bocas, que ele logo deduziu como sendo a nova forma do “olho”, logo agora que ele já estava acostumado a travar conversação com um globo ocular gigante.
Mas pouco importa, pelo menos era uma forma humanóide, e afinal essa lua, esse conhaque, botava-o comovido como o diabo. Chegará então àquela hora da bebedeira em que todos se amam, e dizem o quanto são amigos, a falta que cada um lhes faz (esse principalmente entre Carlinhos e Junior, já que a mulher não conhecia direito o amigo de seu marido).
E como depois dessa troca de palavras a conversa começa a morrer já era hora do amigo ir embora, assim o fez, entre abraços beijos e promessas de volta, para colocar o resto do papo em dia.
Desceu então pensando em que noite estranha acabará de ter, e já no carro, ao lado da arvore (era velha, tinha certeza agora), percebeu, acabara de conhecer a namorada com a qual quase foi pego pelo diretor.
Não havia dúvida, o olho, a boca, o safado do Juninho! E rindo-se ligou o carro locado, e foi reparar na velha rua nova.

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