Esse é um relato verídico que, de tão fantástico, nem iria me dignar a escrever não fosse a insistência de minha mulher, que simpatiza profundamente com a “personagem”. É certo, porém, que muitos de vocês irão considerá-lo somente mais um conto em razão da pouca verossimilhança, coisa que não censuro, mas que por ossos do oficio tenho que informá-los como suposição incorreta.
Digo-lhes já que a veracidade já começa a vacilar na descrição do homem que participará da nossa história. Primeiro por que ele é natural do Acre, estado que , até então, acreditava existir apenas na imaginação de geógrafos e escritores perturbados, e que desde criança sonhava em se tornar intelectual. Por isso aos doze anos já havia lido toda a obra de Machado de Assis, Eça de Queiroz e Dostoievsky se tornando alvo das atenções e admirações das professoras no seu colégio.
Mas nem só de amores vivia aquele homem que, depois de servir durante anos como alvo das chacotas entre os colegas da sua idade (as crianças já eram cruéis naquela época), mudou-se para o Rio de Janeiro, afim de incorporar toda a cultura brasileira que acreditava haver naquele lugar. E munido de uma mochila e vários de seus mais queridos livros desembarcou na rodoviária da imaginada cidade maravilhosa.
(Acabo de perceber, porém, que ainda não informei o nome dessa personagem, desculpem a minha desatenção, mas esse também é tão fantástico que prefiro me abster de fornecê-lo, sigam então para o próximo parágrafo).
Foi então ele para a casa de Geraldo, primo distante que queria ser escritor e se encantava com seu conhecimento sobre literatura, e lá chegando foi prontamente instalado no quarto dos fundos por aquele que durante anos seria seu protetor.
Geraldo o apresentou ao mundo, a roda de amigos escritores, músicos, pintores e a mim, que cheguei a me tornar amigo próximo de tão fantástica criatura. Nesses meios ele era adorado, quase idolatrado, mas perante o resto do mundo permanecia subjugado a brincadeiras perversas que por três vezes tiraram-lhe o ganha-pão. Deixando-o cada vez mais perturbado, até que certo dia pirou completamente, deixando a mim e a muitos intrigados com a sua trajetória posterior.
Primeiro ele, que sempre fora vegetariano, passou a comer apenas carne bem passada, ao ponto, mal passada, até que, já no inicio de seu surto total, comia apenas carne crua, devorando cada pedaço como um animal. Em relação ao desgosto dos amigos e do primo que tanto o estimavam respondia dizendo que o homem nunca deixará de ser animal e todas as informações por ele criadas seriam apenas subterfugidos para não declarar abertamente sua inferioridade perante a mãe natureza, e o pior, perante a si mesmo, finalizando com sua última suposição intelectual “o homem nunca foi digno de se tornar pensante, e aqueles que ousam alcançar tal dádiva são logo apedrejados por seus semelhantes, tentemos então o caminho oposto, e alcançaremos a nossa essência, conquistando a simpatia da massa”.
E perseguindo essa idéia determinado se mudou da casa do primo, e fora morar em um barracão, afastado da “civilização” abdicando de luz elétrica, água tratada e muitos outros benefícios, quase alcançando o estágio animal.
Somente depois de quatro anos retornou, bestializado, ao Rio de Janeiro buscando a ajuda do primo para uma candidatura a deputado federal. Horrorizado com o aspecto do primo Geraldo só concordou com tal disparidade, caso aquela criatura se dignasse a tomar um banho por dia,e fazer sua higiene pessoal, coisa que o outro concordou relutantemente.
Foi então que Gê convocou os antigos amigos para ajudá-lo a lançar aquele que tinha se tornado um mentecapto. E foram-se mais alguns meses até a esperada eleição.
Mas o que mais chamava a atenção em meio a toda aquela agitação dos preparativos foi observar como “Ele” conquistava a simpatia por todos os lugares por onde passava. Sua maneira de falar era quase animalesca e seus modos fariam corar a maioria das damas da alta sociedade, mas em geral era extremamente bem recebido,ao contrario do que acontecia aquele intelectual franzino que a anos apareceu na cidade.
Agora havia se tornado uma personalidade, as mulheres o adoravam, os homens o invejavam, mas nunca se fazia ouvir um protesto (ou brincadeira) contra aquele ser, todos queriam seu respeito e amizade, mesmo que para isso tivessem que se rebaixar a meros bajuladores.
Acabou eleito com mais votos que o governador, cargo que acabou ocupando após alguns anos, chegando hoje ao cargo de presidente do Brasil, e sem oposição, a não ser de alguns intelectuais, antigos amigos, que não passam apenas de meia dúzia de gatos pingados.
É engraçado relembrar esse passado, parece que se passaram séculos dês do dia em que o conheci. O grande problema, porém é que, como disse no primeiro parágrafo, minha mulher tem uma extrema admiração por ele (como muitas mulheres ao longo do país), e desde que contei a ela a história deste tão afamado personagem público ela está me perseguindo pedindo que a escreva de alguma maneira, e o pior, não me deixando comer nada alem pedaços de carne crua, o que, comecei a constatar, está fazendo grande mau ao meu vocabulário...
sábado, 1 de dezembro de 2007
O Olho
Fora um convite especial que o fizera ir até a casa do amigo naquele dia, porém não se apresentava especialmente feliz naquela noite. Acontece que seria uma noite de apresentações entre passado e presente (coisa que sempre o incomodava), já que havia muitos anos não voltava à sua cidade natal e durante esse tempo Juninho (o amigo) envelhecerá e se casou, com a mulher que hoje lhe seria apresentada.
Mas por que não há como fugir destes tipos de compromissos sem que a consciência não pese, e por que a saudade é algo que sempre nos impulsiona a bobagens do gênero Carlos colocou seu melhor terno e foi-se no carro locado, reparando na nova rua velha que um dia já foi seu caminho de casa.
E como se fosse natural estacionou o carro em baixo da árvore (velha ou nova? Não saberia dizer), e tocaria o mesmo interfone da última vez, não fosse o portão que agora era verde. Mas não lhe peça para contar como chegou ao apartamento 701 que ele ficou brincando de pique-pega na cabeça até apertar (só Deus sabe como) a campainha da casa do amigo.
Veio então um homem, de cara barbada, atender, como que para lhe provar que o tempo havia passado, abraçando-o como antigamente, só para confundir mais sua cabeça.
Sem formalidades que ele era de casa foi apresentado à esposa, que com algumas formalidades o cumprimentou sorrindo, formosa e meiga, como faz as boas mulheres casadas com desconhecidos conhecidos...
E ele acabou reparando em seus olhos,cor de mel, como os de uma antiga namorada.
Mas tudo estaria bem, não fosse a esposa ir até a cozinha pegar algumas cervejas (enquanto os amigos se acomodavam nos sofás a conversar sobre a vida) e voltar como um globo ocular gigante, com três garrafas enroladas em seus cílios.
Tal visão seria o suficiente para desesperar qualquer outro homem, Carlinhos porém buscou primeiro apoio na expressão do amigo, e percebendo que tal se mantinha impassível adotou uma expressão facial semelhante e pegou sua cerveja. Afinal, não se podem cometer gafes em encontros como este, e de que importava que a mulher fosse um olho? Era um olho educado, que lhe buscará uma cerveja, portanto não tinha com o que se preocupar.
Porém, seria cinismo afirmar que a cerveja não o ajudou um pouco até se acostumar com a situação vivida.
Todavia seus companheiros não pareciam dar grande importância ao fato, e continuavam a lhe contar os fatos cotidianos da vida de um casal, como no dia em que foram pescar e a mulher não sabia como colocar isca no anzol e acabou por cair do barco, voltando encharcada para casa (passaram então dois meses sem comer peixe). E riam-se das histórias do Carlinhos (Juninho pela boca, a esposa pelas pálpebras), fazendo então a noite passar.
Lá pelas tantas eles concordaram em colocar uma música, das antigas, para se lembrarem dos bons tempos, e pouco importava que fosse um olho, ainda assim ela lhe parecia agradável, tanto que Carlos ficou a dançar e conversar com a criatura enquanto o amigo ia ao banheiro.
Entretanto ela era boa demais, e antes que ele pudesse dar pela coisa já estava dançando colado à sua pupila, escutando-a a falar coisas sobre o mundo ao seu ouvido de uma forma carinhosa e bonita, que o deixava arrepiado. E quando Juninho chegou do banheiro ouve certo desconforto entre os dois, quebrado com a promessa da mulher de ir pegar um conhaque na cozinha.
E um pouco envergonhado se pôs a conversar com Junior sobre aquela vez que o diretor quase os pegou com duas namoradas dentro do laboratório de química. Conversa que foi logo alterada quando apareceu a porta uma criatura com quatro caras e cinco bocas, que ele logo deduziu como sendo a nova forma do “olho”, logo agora que ele já estava acostumado a travar conversação com um globo ocular gigante.
Mas pouco importa, pelo menos era uma forma humanóide, e afinal essa lua, esse conhaque, botava-o comovido como o diabo. Chegará então àquela hora da bebedeira em que todos se amam, e dizem o quanto são amigos, a falta que cada um lhes faz (esse principalmente entre Carlinhos e Junior, já que a mulher não conhecia direito o amigo de seu marido).
E como depois dessa troca de palavras a conversa começa a morrer já era hora do amigo ir embora, assim o fez, entre abraços beijos e promessas de volta, para colocar o resto do papo em dia.
Desceu então pensando em que noite estranha acabará de ter, e já no carro, ao lado da arvore (era velha, tinha certeza agora), percebeu, acabara de conhecer a namorada com a qual quase foi pego pelo diretor.
Não havia dúvida, o olho, a boca, o safado do Juninho! E rindo-se ligou o carro locado, e foi reparar na velha rua nova.
Mas por que não há como fugir destes tipos de compromissos sem que a consciência não pese, e por que a saudade é algo que sempre nos impulsiona a bobagens do gênero Carlos colocou seu melhor terno e foi-se no carro locado, reparando na nova rua velha que um dia já foi seu caminho de casa.
E como se fosse natural estacionou o carro em baixo da árvore (velha ou nova? Não saberia dizer), e tocaria o mesmo interfone da última vez, não fosse o portão que agora era verde. Mas não lhe peça para contar como chegou ao apartamento 701 que ele ficou brincando de pique-pega na cabeça até apertar (só Deus sabe como) a campainha da casa do amigo.
Veio então um homem, de cara barbada, atender, como que para lhe provar que o tempo havia passado, abraçando-o como antigamente, só para confundir mais sua cabeça.
Sem formalidades que ele era de casa foi apresentado à esposa, que com algumas formalidades o cumprimentou sorrindo, formosa e meiga, como faz as boas mulheres casadas com desconhecidos conhecidos...
E ele acabou reparando em seus olhos,cor de mel, como os de uma antiga namorada.
Mas tudo estaria bem, não fosse a esposa ir até a cozinha pegar algumas cervejas (enquanto os amigos se acomodavam nos sofás a conversar sobre a vida) e voltar como um globo ocular gigante, com três garrafas enroladas em seus cílios.
Tal visão seria o suficiente para desesperar qualquer outro homem, Carlinhos porém buscou primeiro apoio na expressão do amigo, e percebendo que tal se mantinha impassível adotou uma expressão facial semelhante e pegou sua cerveja. Afinal, não se podem cometer gafes em encontros como este, e de que importava que a mulher fosse um olho? Era um olho educado, que lhe buscará uma cerveja, portanto não tinha com o que se preocupar.
Porém, seria cinismo afirmar que a cerveja não o ajudou um pouco até se acostumar com a situação vivida.
Todavia seus companheiros não pareciam dar grande importância ao fato, e continuavam a lhe contar os fatos cotidianos da vida de um casal, como no dia em que foram pescar e a mulher não sabia como colocar isca no anzol e acabou por cair do barco, voltando encharcada para casa (passaram então dois meses sem comer peixe). E riam-se das histórias do Carlinhos (Juninho pela boca, a esposa pelas pálpebras), fazendo então a noite passar.
Lá pelas tantas eles concordaram em colocar uma música, das antigas, para se lembrarem dos bons tempos, e pouco importava que fosse um olho, ainda assim ela lhe parecia agradável, tanto que Carlos ficou a dançar e conversar com a criatura enquanto o amigo ia ao banheiro.
Entretanto ela era boa demais, e antes que ele pudesse dar pela coisa já estava dançando colado à sua pupila, escutando-a a falar coisas sobre o mundo ao seu ouvido de uma forma carinhosa e bonita, que o deixava arrepiado. E quando Juninho chegou do banheiro ouve certo desconforto entre os dois, quebrado com a promessa da mulher de ir pegar um conhaque na cozinha.
E um pouco envergonhado se pôs a conversar com Junior sobre aquela vez que o diretor quase os pegou com duas namoradas dentro do laboratório de química. Conversa que foi logo alterada quando apareceu a porta uma criatura com quatro caras e cinco bocas, que ele logo deduziu como sendo a nova forma do “olho”, logo agora que ele já estava acostumado a travar conversação com um globo ocular gigante.
Mas pouco importa, pelo menos era uma forma humanóide, e afinal essa lua, esse conhaque, botava-o comovido como o diabo. Chegará então àquela hora da bebedeira em que todos se amam, e dizem o quanto são amigos, a falta que cada um lhes faz (esse principalmente entre Carlinhos e Junior, já que a mulher não conhecia direito o amigo de seu marido).
E como depois dessa troca de palavras a conversa começa a morrer já era hora do amigo ir embora, assim o fez, entre abraços beijos e promessas de volta, para colocar o resto do papo em dia.
Desceu então pensando em que noite estranha acabará de ter, e já no carro, ao lado da arvore (era velha, tinha certeza agora), percebeu, acabara de conhecer a namorada com a qual quase foi pego pelo diretor.
Não havia dúvida, o olho, a boca, o safado do Juninho! E rindo-se ligou o carro locado, e foi reparar na velha rua nova.
Assinar:
Postagens (Atom)