Quando se passa a noite acordado a fazer algum trabalho urgente (e para os publicitários tudo é urgente) as horas parecem passar de uma maneira diferente. Os ponteiros, nesse ponto, deixam de importar, pois a medida de tempo é feita a partir das partes concluídas e “as partes” demoram a ser concluídas.
Depois dessas noites um homem parece envelhecer anos e, mesmo após as aclamadas oito horas de sono, sua cabeça nunca se recupera, fazendo-o um homem de quarenta quando tem pouco mais que vinte anos.
Mas ele estava acostumado com essas reações, afinal há dois anos trabalhava naquela empresa, o que o tornava (se a medicina finalmente aprovar a teoria descrita) já bicentenário, apesar de ter apenas 24 anos. Por isso quando foi para a cama às duas da manhã se deu conta de quanta sorte tinha, havia chegado mais cedo em casa...
E costumava ser um homem diferente, bom, costumava ser um homem, pois agora naquela carapaça habitava somente “O publicitário”, um animalzinho comum nos dias de hoje, que vive correndo por ai dizendo ser “criativo” quando na verdade já faz anos que não sabe o que é “criatividade” (isso se algum dia soube).
Não quer dizer, porém, que não fosse uma pessoa boa, apenas depende do que você entende como boa. Ele tinha lá sua moral (era católico praticante e se opunha a um monte de coisas) e sempre tratava as mulheres com muito respeito, pois tinha aprendido com sua mãe que essa era a maneira certa de se fazer.
Só não pensava muito no mundo e quando via uma idéia que lhe parecia conveniente, ou que o fizesse parecer inteligente, acatava e tomava-a como sua. Alem disso usava All Star (por que o fazia parecer descolado) e adorou Tropa de Elite (mesmo sem entender direito o filme), em fim, era uma pessoa comum, que não causava muita controvérsia e ganhava rios de dinheiro, mas trabalhava de mais, como qualquer um podia constatar.
Chamavam-no J.P, mas não sabiam direito por que, já que se chamava Lucas Silva.
E levava uma vida normal, ganhando muito dinheiro, até que acordou azul, assim, de repente, como quando se pega um resfriado.
O problema é que quando J.P acordava resfriado tomava um dos muitos remédios para os quais já havia feito propaganda, mas não se lembrava de ter feito nada para um remédio que o iria deixar voltar para cor normal, então ligou para o seu primo, que não era médico, mas tinha um amigo que era.
E o amigo do primo (que nunca tinha ouvido falar em gente azul) ligou para os jornais, antes de ir para a casa do JP. Às dez horas, então, já estavam lá todos, quando apareceu o primeiro jornalista dos muitos que apareceriam em breve.
Ao que parece gente azul era o assunto quente do momento, pois todos estavam cansados de tanta miséria e violência, e agora quem não tivesse a foto do Smurff (apelido concedido por um desses jornais sensacionalistas) na capa não vendia suficiente nem para pagar o papel da impressão. Por isso de uma hora para a outra J.P se tornou uma celebridade e nem podia andar pelas ruas direito sem que fosse interpelado por algum fã que gostaria do seu autógrafo.
Ele era uma febre nacional, e depois mundial (assim que foi transmitida uma reportagem sobre sua vida pela rede BBC), e se tornou o modelo do garoto perfeito, conquistando multidões por onde passava. Até que apareceu outro garoto Smurff.
Não cabe aqui, porém, descrever completamente o outro garoto, dizemos apenas que se assemelhava bastante com nosso amigo, especialmente nas horas de trabalho e que, apesar de ser chinês (e no mundo de hoje ninguém parece gostar da china) conquistou tanto carinho quanto o brasileiro, causando um pouco de ciúme no J.P e balbúrdia na comunidade cientifica (seria um vírus atacando? E como teria ele chegado até a china?).
Mas antes que alguém pudesse responder qualquer pergunta outro apareceu, e outro, até que todas as pessoas trabalhadoras, com dinheiro e não controversas ficaram azul, mesmo algumas crianças (mas essas eram poucas, pois quase todas as crianças são controversas). E foi ai que começaram a aparecer os problemas.
A controvérsia nem sempre é adorada pela humanidade, na verdade são poucos os que prezam pela diferença, ou pela mudança (coisa que Maquiavel já explicava pela filosofia há anos), mas até então tudo poderia ser resolvido pela aparência, pois nela se baseia todo o julgamento do ser humano.
Agora, porém, havia pessoas azuis andando pela rua e as empresas estavam a sua caça, rejeitando todo aquele de pele “normal” elementos perigosos e subversivos, que poderiam a qualquer minuto prejudicar a empresa fazendo coisas que os normais fazem.
As mães então, peça fundamental na elaboração dos ideais familiares e na proteção dos valores, não queriam suas filhas namorando com essas, esses, normais! Que pareciam não ter vergonha da sua pele. Afinal, o que se espera de um não-azul?
Ao que me consta houve mesmo um presidente que foi deposto, por não gozar mais de popularidade perante a população em razão da sua cor, coisa que era inaceitável do ponto de visto estético (como disse ele no seu último discurso), pois terno preto não combina com azul, como então queriam eles que o presidente tivesse aquela cor?
E, surpreendentemente, após esse movimento todos os políticos apareceram repentinamente azuis (coisa que era inaceitável do ponto de vista estético, como se comentou nas revistas depois).
Finalmente um dos partidos procurou J.P (que andava sumido em face dos últimos acontecimentos), queriam elegê-lo para presidente, afinal ele era o azul original, e azul era a cor da moda.
Ele, apesar de indignado (havia votado naquele último presidente) aceitou entrar para a campanha, que foi fácil, apesar da forte oposição estudantil, que era oposição de tudo, no final das contas.
Mas no dia da posse J.P acordou verde, assim, de repente, como quando se pega um resfriado. E até tentou ligar para o amigo do seu primo (o que era médico), mas este estava com o celular desligado. Resolveu então aparecer daquele jeito na comemoração.
E foi deposto, afinal azul era a cor da moda, e verde não combinava com o terno preto...
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