Ele acordou aquele dia com mais uma mulher desconhecida em sua cama (chama da Maria, talvez) e com suas costumeiras dores de cabeça. E depois de um breve café da manhã constatou que nem a cama, nem a casa, eram realmente dele, e foi-se embora deixando para trás um adorável bilhete apaixonado, como havia se acostumado a fazer com o passsar dos anos.
O desgosto que apresentava, porém, não era condizente a um homem que havia acabado de acordar de uma boa noite de sexo, mas de mais um angustiado que anda pela rua a chutar latinhas, como em alguma cena de um filme já esquecido. Acontece que João sofre de um mal comum a alguns artistas modernos, a falta de uma musa, objeto de desejo tão importantes a aqueles que se dizem escritores.
E foi por uma dessas forças inexplicáveis do destino que acabou entrando no café da esquina, pedindo um capuchino para acompanhar seus cigarros. E até poderia entrar por aquela porta um belíssima morena que ele não iria conseguir se concentrar no mundo real, estava uma manhã especial pra devaneios perdidos que aumentam a angustia da gente.
Tudo estaria pessimamente normal não fosse a mosca que persistia em voar em frente ao seu nariz desafiando-o com uma agilidade (e barulho) peculiar somente aos insetos. Foram-se esforços em várias tentativas de assassinato sem nem um resultado, e malditos sejam esses artrópodes, ele pensaria (invocando as antigas aulas de biologia), não fosse ela parar em frente ao quadro numero três - contando da direita para à esquerda - exposto na parede por algum artista desconhecido.
Era uma mulher semi-nua, em tinta a óleo, nas cores vermelha azul preto e branco, dispostas com uma qualidade técnica única, impressionante mesmo a um ignorante das artes plásticas. Mas o que chamou a atenção de nosso amigo era a expressão nos olhos daquela retratada, de uma pureza e delicadeza singela a figuras estáticas, mas que transmitem paixão se o artista for realmente capaz, e aquele era.
Passou então a contemplar a imagem todos os dias de manhã, saindo de casa bem cedo a fim de passar todo o dia conversando com aquele que alguns chamam de objeto inanimado, mas que retribuía a ele toda a atenção e delicadeza necessárias para que Joana (Jô, como ele chamava a figura carinhosamente) se torna-se progressivamente sua única musa.
Acabou por comprar o quadro, e vive hoje um casamento feliz no número 79 da rua Ernani de Mello. O único problema é que ela continua pelada, mas ele já contratou o pintor para lhe dar roupas, afinal quem quer sua mulher se expondo assim para as visitas?
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